Jesus, o alemão

janeiro 27th, 2012 § Deixe um comentário

Só fui encontrar Jesus mesmo na Alemanha. Por acaso e justamente em uma das avenidas afastadas do centro da cidade onde passei os meus últimos cinco meses. Na ocasião, eu estava sentado no banco de passageiros de um Saab 92 que, pelo belo estofado e pelo ronco ferino de máquina, me fazia esquecer minha repulsa antiga por carros. A bem da verdade, deslizávamos tranqüilos enquanto o recém-motorista que me convidara ao passeio me convencia aos poucos que dirigir não era uma paixão, mas uma religião no país.

O encontro foi rápido. Desci do carro e logo o avistei, como se ele tivesse brotado da terra, a cerca de cinqüenta metros adiante. Vestia jeans, uma jaqueta desbotada, mochila. Tinha os cabelos desgrenhados e não me surpreenderia se rangesse os dentes, enquanto escrevia uma de suas mais novas profecias em um dos tantos Litfaßsäule espalhados pela cidade. Obviamente me oferecia as costas.

Não pude trocar palavra alguma com Jesus. Mantive distância e esperei que terminasse a sentença que calcava obstinado nos poucos espaços em branco da coluna com seu pincel atômico. Não houve também decepção. De fato, não esperava outra coisa do filho de Deus. O que mais me indignou foi saber de suas profissões anteriores. Antes de resolver ser o Messias em um bairro abastado de uma cidade aparentemente composta somente pela classe média alemã, descobri mais tarde que Jesus trabalhou em uma agência de arte e propaganda. Pelo jeito foi ali que descobriu o lugar certo para “pregar”.

Indignado, o jovem motorista quis fotografá-lo. A surpresa não era minha, puro filho de um país corrido e atravessado pelas simpatias e pela superstição, mas dele. Para nos proteger seria melhor entrar no carro e passar lentamente ao lado de um Jesus que voltara agora (como minha mãe já me alertara) desleixado e já na casa dos 40, apesar de manter no rosto o inconfundível ar jovial que eu havia visto em suas melhores fotografias, claro, aos 30. De fato, é melhor não causar qualquer crispação no espírito de alguém que já andou sobre o mar da Galiléia.

O Saab 92, pensando que fosse um jaguar, não o carro, mas o felino mesmo, deslizou lentamente para que eu pudesse capturar a melhor imagem de Jesus, tiozinho, aos 40. Como era de se esperar, ele percebeu. Guardou o pincel atômico na mochila e, abaixando a cabeça, deixou-nos à vista uma clareira aberta ao longo dos anos na cabeleira. Depois simplesmente sorriu, um pouco gentil, um pouco sem graça, não como se quisesse demonstrar acanhamento ou pedir desculpa, mas como se quisesse mostrar que, mais velho e calvo, estava fora de forma. Na foto, desfocadíssima, ele nos dá, aliás, um jóia.

Ocorre que, embora Jesus possa facilmente andar anônimo entre as massas, pois como eu disse ele usava jeans e jaqueta, as autoridades da cidade já o conhecem. Assim como também já estão cientes de suas pichações. Não é novidade alguma que Jesus vive e prega hoje na Alemanha, aproximadamente a 40Km de Frankfurt. Até as autoridades já sabem.

Também cientes disso, demos uma volta no quarteirão para despista-lo e voltamos uns minutos depois ao pilar de propagandas, agora abandonado, para ler a boa nova deixada pelo Cristo fora de forma, de mochila e calça jeans. Logo abaixo de um cartaz do famoso musical Cats as suspeitas se confirmaram:

“Na Sooderstraße, 23, mora Jesus Cristo, aquele que tornou a morte inoperante e trouxe luz à vida e à imortalidade. II Timóteo 1:10″

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Como escreveu Timóteo, a mensagem já tinha sido dada por Jesus após ter saído de sua tumba – encontre-se ela na Igreja do Santo Sepulcro, no jardim de Getsêmani, ou ainda no santuário em Srinagar – e é lida até hoje como promessa de regresso. Encorajados pelo evangelho, decidimos, portanto visitar a casa de Jesus na Sooderstraße, número 23.

O alto verão na Alemanha permitiu à casa de Jesus apresentar-nos um jardim muito bem cuidado. As portas e janelas, brancas, também eram convidativas e, ao contrário do sentido de ordem dos alemães, o portãozinho estava escancarado para quem quisesse entrar. O único impedimento ou obstáculo era justamente feito de uma grande quantidade de placas evangélicas que cercavam o jardim. A casa parecia ser protegida pela palavra.

Não tivemos paciência de ler, nem vontade de entrar. De alguma maneira já conhecíamos os textos. Fui até o muro para ver alguns objetos que me chamaram a atenção: bonecas, ursinhos e brinquedos desbotados pela chuva e pelo Sol e com mensagens de obrigado davam um toque familiar (talvez só para o brasileiro aqui) e macabro ao cenário. Resolvemos partir.

Ao longo do caminho uma dúzia dos Litfaßsäule me chamou a atenção. Chegando em casa me disseram que Jesus chamava-se na verdade Oliver D. e tinha 47 anos. Falaram mais. Que seu caso era seguramente diagnosticado como esquizofrenia e que tinha recebido nos últimos anos o apelido de Schmierfink, Besuntão em português. Por um segundo, achei plausível, devo ter aceitado, afirmado com a cabeça, inclusive rido, e o assunto se foi.

No entanto, talvez passado cerca de um minuto, ao devolver lentamente a xícara de chá ao encaixe do pires, cheguei a pensar que de maneira alguma me importava se Jesus se chamava Oliver ou se Oliver se chamava Jesus ou se o próprio Jesus da Cisjordania se chamava Oliver e também havia trabalhado em uma agência de propaganda antes de se tornar orador. O que me havia deslocado mesmo naquele verão de um dia só na Alemanha foi imaginar o tamanho da dose de medicamentos que teria tomado Oliver D. para envelhecer assim a imagem de Jesus e o que faria a Psiquiatria, na Palestina de outrora, com o filho do carpinteiro José para diminuir-lhe os milagres.

 

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Dostoiévski no jardim

julho 25th, 2011 Comentários desativados

Embora digo a todos que estou em Frankfurt, na verdade, estou dormindo em um porão frio, mas bem iluminado, em um bairro chamado Biebrich, na cidade de Wiesbaden, aproximadamente a 20 minutos do aeroporto internacional. Pode parecer estúpido, mas algumas vezes chego a pensar que, se um vôo entre Brasil e Alemanha corresponde mais ou menos a uma noite de sono e se é verdade que todo viajor é acometido pela sensação onírica de viajar sem nunca ter partido, basta adormecer na barulhenta Guarulhos para acordar na silenciosa Frankfurt: levados a sério, esses 20 minutos do terminal 2 até o porão onde me escondo são os únicos índices de realidade que me separam da pátria.

Ao contrário do que alguns imaginam, Wiesbaden, não Frankfurt, é a capital do estado de Hessen e o que a separa da próxima capital, neste caso Mainz, é somente o Reno. Mas para quem vem de longe, as duas capitais parecem mesmo é viver na sombra de Frankfurt, que muitas vezes me lembra uma moderna e tímida edição de bolso de São Paulo.

Segundo dizem, a abundância das águas sulfurosas que brotam atualmente das fontes a 66° celsius no centro turístico de Wiesbaden foi o que levou os romanos a nomear a região de Aquae Mattiacorum (Mattiakern refere-se a um dos antigos troncos germânicos oriundos dos catos ou cáticos) e a construir, segundo o costume imperial, termas e uma muralha de pedra, conhecida como muro dos pagãos e da qual ainda é possível ver ruínas aqui e ali ao lado do algomerado de boutiques da cidade. Com o declínio do império, primeiro os alamanos no século IV e quase um século depois os francos e os merovíngios tomaram os domínios de Wiesbaden, que a partir daí foi denominada como „Wiesbada“, deixando incrustado para sempre em seu nome a referência à água que mina dos campos e à instalação dos romanos, acostumados às saunas e aos banhos, costumes posteriormente  adotados pelos chamados bárbaros como sinais de civilização.

Não por acaso, „Aquis Mattiiacis“ é o que se lê na fachada do prédio maciço e luxuoso que sombreia o teatro da cidade. A construção é um sinal do rápido reconhecimento de Wiesbaden como cidade termal no século XIX. Construída em 1902 pelo mesmo arquiteto que esboçou o conhecido parlamento de Berlim e o palácio da justiça de Munique, a antiga casa de banhos, é hoje mais conhecida por residir um dos mais antigos cassinos da Alemanha e pela sua arquitetura neoclássica, do que pelo seu passado como Kurhaus. Como se ao longo da história o jogo tomasse o lugar dos banhos.

***

Atravesso direto o interior luxuoso da antiga estância termal e do outro lado encontro um parque, com um lago no centro, uma cantina abastada, um palco ao ar livre e inúmeros jardins. Dou uma volta pelo parque e vejo que ruínas, colunas, arcos e esculturas romanas decoram os jardins de tal maneira, que não é difícil imaginar que são falsas, réplicas encomendadas a artistas menores para encher de passado e pujança os passeios vazios do pequeno burguês que talvez teve sorte no jogo de hoje. Entre essas peças, depositada sobre um toco de coluna romana, encontro por acaso a cabeça de Dostoievski. Leio a pequena placa dourada e descubro que, em 1865, o autor viciado no jogo de roletas, justamente por ter perdido todas as suas economias no cassino de Wiesbaden, inspira-se na sua má sorte para escrever a novela O Jogador. Soube que a novela, autobiográfica, por assim dizer, interrompeu a escrita de Crime e Castigo, que isso levou o escritor a conhecer sua futura mulher e que sua publicação evitou que Dostoievski, devido a uma cláusula contratual absurda, perdesse os direitos sobre a sua própria obra. A cabeça, como tudo ali, é recente e tem uma origem duvidosa: foi encomendada pelo então já presidente da união soviética Mikhail Gorbachev.

Guiado por um impulso ainda desconhecido, continuo pelo parque, e não me sai da cabeça a imagem de Dostoievksi perdendo o domínio sobre si mesmo, talvez por, como escreveu, ter negligenciado uma de suas leis no jogo: não ter evitado o entusiasmo excessivo diante da roleta. Então vejo Gorbachev visitando Wiesbaden nos anos 90 e de alguma maneira essa imagem me conduz ao momento em que o protagonista em O Jogador, após perder no jogo, faz valer a altura dos Montes Urais na divisão entre uma espécie de ethos do jogador europeu e do jogador russo. Como diz o personagem, a faculdade de aforrar capitais entrou no catecismo das virtudes e dos méritos do homem ocidental civilizado como um ponto de fé, ao passo que o russo, não só é incapaz de acumular capital, como também os gasta a torto e a direito sem o menor sentido das conveniências. De acordo com isso, a roleta teria sido inventada mais de acordo com o espírito russo do que com a moral do homem europeu.

Um sentimento ingênuo e seguro de que Gorbachev, talvez sem saber, deixou marcado no busto do escritor, ali, ao lado do cassino, essa particularidade do homem russo tomou conta do passeio e me fez rir. A moral do homem russo descrita ironicamente por Dostoievski me devolvia, em parte, ao Brasil, em parte, à idéia já recorrente, de que nada pode contra a contingência. No centro abastado de Wiesbaden, eu encontrava agora não só algo semelhante à imagem que se tem do homem sulamericano – a predileção pelo dinheiro “fácil” do jogo, a despeito do dinheiro honesto do trabalho – como também um fragmento da crítica ao processo alemão de enriquecer. Antes disso, o que eu encontrava ali ressoava uma crítica mordaz à virtuosidade, honestidade e austeridade de uma figura central na sociedade ocidental personificada na figura do pai. Figura tão honesta que mete medo, que não joga, senão faz de uma sociedade um império de Vaters, através do coroamento de séculos de trabalho, perseverança, inteligência, energia, firmeza e, sobretudo, previdência.

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Escurecia quando me aproximava da casa abaixo da qual silencia o meu porão. Vejo quando uma cegonha pousa no telhado. Imagino pais de família lendo livros edificantes para seus filhos, dou meia volta e continuo trinta minutos para o sudeste. Encontro a kitsch monumentalidade do castelo de Biebrich. De um rosa flamingo berrante, enquanto dá as costas para o verde de um parque, encara o Reno com os olhos vazios de um passado esquecido ou negligenciado pelos passantes diários. Nunca subi as escadas que dão para o hall do castelo. A corrente encorpada e ameaçadora do Reno, margeado por esqueletos de pedra, árvores calosas e o caminho de Brahms, talvez seja o que imantiza a direção dos meus passos e faz do castelo rosado uma mancha disforme no canto ignorado do meu olhar. O que soube depois é que algum dia a construção serviu de residência a uma das linhagens da dinastia Nassau.

10 minutos de amizade

maio 24th, 2011 Comentários desativados

No breu de um dos corredores do que chamarei agora de hotel, eu só pensava no tempo em que estive fora e em como esvaziei uma garrafa de vinho com recém-conhecidos diante do meu último pôr-do-sol. Estava fora do tempo, de casa, fora da língua e por alguns minutos fora da vida. Voltava para o quarto. Sentava-me diante de mim mesmo no espelho e tentava pensar em quase tudo que me faltava. Talvez por engano, foi nesse momento que fui tomado por uma presença imprevista e, quem sabe, por isso mesmo a mais verdadeira das que tenho notícia. O telefone tocava e num ato instantâneo me sentei pra ouvir. Na ligação uma voz de um amigo me falava de longe. Ao que tudo indica, ele havia acabado de usar o telefone e por algum passe errado dos dedos acabou discando meu número, deixando assim, sem saber a quem, uma mensagem anônima. O aparelho devia estar sobre o braço do sofá, sobre a mesa, em algum canto visível. A mensagem era um constante conjunto de chiados e ruídos, sussurros, palavras cortadas, um diálogo absurdo com a irmã sobre o aniversário que está chegando. De vez em quando ele cantarolou, deve ter mexido os dedos, tamborilado sobre o tampo da mesa, balançado a cabeça, olhado o que havia à frente, explicado algo a si mesmo, relaxado os ombros, feito quase todo o tipo de coisa que fazemos quando nos ignoramos. Pensei nos artistas internados em Gugging, depois em Adolf Wölfli e por fim em um abraço. Quis guardar aquilo como uma lembrança, como uma espécie de fotografia sem pose, pura presença, intimidade ruidosa do silêncio. Então sobre mim mesmo mergulhado no espelho, reproduzi repetidamente a mensagem da secretária eletrônica e por fim me gravei quieto e atento ao que talvez quis dizer meu amigo.

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Anotações Musicais de Adolf Wölfli

Antologias

maio 2nd, 2011 § Deixe um comentário

Para algum efeito narrativo vou dizer que há quatro anos sentava-me regularmente com um bom camarada e discutia a necessidade de uma antologia da literatura em língua portuguesa que tomasse pra si um parâmetro crítico que não apenas nos era caro naquela ocasião, mas que nos parecia sincero e verdadeiro, segundo o qual a boa literatura não seria feita de obras, livros, autores ou textos, mas sim de trechos, fragmentos, frases recolhidas, veja bem, não só pelo percurso contingencial de nossas leituras, como também pelos ditames de um livro sempre por vir.

Havia graça, por exemplo, na recusa do todo pela parte, em reduzir Os Lusíadas a 18 versos, Cesário Verde, Fernando Pessoa e Camilo Pessanha a poucas páginas, o que nos permitia inclusive a costura de uma nova ordem, dando forma por fim a um autor ainda sem nome.

Estávamos felizes. Todo o Drummond ou o Bandeira, por exemplo, iam perdendo os contornos e a força diante de um ou outro verso isolado que impiedosamente arrancávamo-lhes para neles suturar outros retalhos da criatura futura.

Tal procedimento exigiria aliás que ao cabo de uma antologia fosse necessário imediatamente iniciar os trabalhos de uma outra, já que nosso ateliê – assim ficaram conhecidas as tardes de leitura – consistia em fragilizar, para não dizer comprometer, minar, implodir subsequentemente, o parâmetro das antologias anteriores.

Chegamos, inclusive, a estar certos de que a idéia de obra nunca seria possível. Partiria de um ato coletivo negligente chancelado pelo consentimento morno e também coletivo dos pares. Para dar um exemplo, todo o conjunto de textos de Sá de Miranda que, segundo uma noção de obra e de autoria, estamos habituados a reconhecer e que nos parece inconfundível, respeitaria uma organização que nos era tão externa e um critério tão posterior e alheio que sempre nos despertava a disposição necessária para substituí-los.

Após meses de trabalho na primeira antologia, estávamos exaustos e tínhamos em mãos algo solto, bruto e tão novo quanto ilegível. O camarada partiu depois de um desentendimento sobre a urgência de uma antologia da literatura nacional em iâmbicos. Me vi sozinho entre um amontoado de fichas, pastas e anotações. Um vento gelado soprava em um outono parecido com o de agora, no momento em que, depois de muito tempo separado de minhas leituras, volto a encontrar, dentro de uma edição roubada de Ensayos de Poética de Jakobson, a página arrancada da agenda onde, me lembro bem, anotei rapidamente o assunto de nossa primeira leitura.

Biologias

abril 17th, 2011 § Deixe um comentário

você insiste, mas ela sumiu, deixou as malas, os comprimidos, os livros baratos, o travesseiro morno e vazou. Faz três dias: você perplexo diante do espelho como uma formiga ao encontrar a ameaça de uma poça d’água. Diante de você desaba uma saga inteira de larápios, pois sua cabeça terminou numa sucursal de idéias pálidas e a sua língua no tobogã da cretinice. Talvez ela saiba, mas você não tem a menor ideia: está entregue, pronto e perfeito como um verbo intransitivo.

É só à noite, quando o sol resolve se pôr para você, que lampejam os primeiros vislumbres do disfarce.


fevereiro 1st, 2011 § Deixe um comentário


aquele poema sobre a mesa, esperando a leitura, abandonado meses e meses pois deixou de acreditar haver qualquer sentido em ler poesia, cadenciar palavras, saber o que é um bom verso, a despeito de uma frase manca, talvez de Ashbery ou de qualquer outro que nos fale das cinzas, e  se perguntar o que é isso senão aquela mesma empresa dos primeiros homens que começaram a mapear a lua?

“Os dias brancos são os dias do futuro.”

Então me vejo em Munique, cidade solar no meu inventário imaginativo. Andamos até o pátio interno da antiga prefeitura, olho para o céu, esqueço as toneladas de pedra que me cercam e penso novamente no verão, nas últimas noites que passei acordado, de vigília, na espera de que a ponta de um sorriso pudesse inclinar um pouco mais a terra até assistirmos juntos o incêndio que alerta é dia! Até que um pássaro preto, vestido de funcionário, mas não o brasileiro, senão o empertigado, olhos (azuis?) como os da BMW, sorrindo, passa, pousa e seca sobre o tapume que me distraia do melhor ângulo da cidade. Eu preciso voltar.

outubro 30th, 2010 § Deixe um comentário

Há aquela pequena passagem de Austerlitz, onde, numa nota de rodapé, o narrador nos conta sobre a cúpula da estação ferroviária de Luserna que havia influenciado o arquiteto Louis Delacenserie na construção da estação da Antuérpia. A nota toda é mais um dos pequenos fragmentos de lembrança e, se não fosse a imagem de culpa que ela encerra, teria sumido pra mim dentro das outras centenas de perambulações textuais do autor.

Até ontem me perguntei o que havia de especial nesta nota  e como ela agia em mim, fazendo-me sempre retornar numa leitura obsessiva do trecho que por muito tempo foi um enigma encravado na página. O mais estranho é que recentemente aquela nota tem me aparecido como um fragmento de sonho. Se penso os sonhos como o ato contínuo de escrever, compilar, organizar e editar manuscritos, na sua maior parte, ilegíveis, esta passagem seria uma nota, um adendo onírico daquilo que não cabe mais no centro narrativo, portanto, é posto à margem, mas que paradoxalmente imprime em nós um sinal mais agudo do que o que é levado pela correnteza fluvial do texto sonhado.

Sobre uma ponte no caminho de volta do museu de Gletscher, o narrador se vê imobilizado pela ampla visão da cúpula que se destaca no horizonte níveo-claro dos Alpes. Coincidentemente naquela mesma noite a estação é tomada por um incêncio e toda cúpula acaba em destroços. Somente no dia seguinte, lendo o jornal em Zurique é que o narrador soube do ocorrido. A imagem que ele vê naquela manhã é a mesma que vemos na nota. Da cúpula uma coluna espessa e escura de fumaça sobe por sobre os telhados. O que impressiona é que um misto desta imagem com o branco glacial dos alpes enche de culpa o narrador. Atravessado pela sensação de ter participado criminosamente do incêndio, mesmo enquanto dormia profundamente, ele ainda vê em seus sonhos o levante do fogo contra a cúpula iluminando o branco glacial dos alpes dentro da noite escura. Além das possíveis relações entre este trecho, vida e obra  de Sebald e a imagem criada do perpretador por toda uma geração alemã que se culpa, se exila e se compadece com as vítimas do Holocausto, somente duas coisas me dá uma direção para o meu eterno retorno na nota: 1) essa duas escuridões, uma, na qual ele se encontra desacordado, e a outra, na qual o fogo ilumina a imagem panorâmica dos Alpes; 2) a semelhança dessa brancura, que o paraliza horas antes da destruição da cúpula, com a que se abre e cega
Gordon Pym minutos antes da narrativa ser interrompida.

um rodapé

outubro 16th, 2010 § Deixe um comentário

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Estranhamente, – pois algo em mim insiste em me dizer que só pode ser bobagem – algo nas eleições sempre me paralisa. Me escondo nas sombras do meu dane-se e continuo, pra ser sincero, não menos alegre, na retaguarda da minha passividade. Sem tomar posição, sem me lançar ao debate, sem manifestar a presença do meu corpo de dúvidas. Mas depois de algum tempo, o formigamento se vai e me vejo isolado com a palavra lancinante, vergonhosa, inútil querendo sair.

Paralisia ou bobagem, acho que ela está relacionada com a construção da imagem de um candidato, ou, pondo em outros lençóis, claro, os da literatura, com a construção de um personagem. Não estou preocupado agora com a imagem que construímos ou que somos induzidos a construir, mas me interesso sim pelo empenho hercúleo por parte das próprias figuras em alternadamente afirmar e desmentir, num ato que não sei se chamo de vontade de representação ou de vontade de diluição.

Pois, olhe você como a coisa toda é perniciosa e traiçoeira. Está aquém e além da luta de classes, da formação do Estado Nacional, da idéia mais pura de direito e dos tomos da justiça sobre os quais estamos sentados há séculos. Quem é que representa quem? Isto é possível?

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KORRELATIONEN IX

julho 14th, 2010 § Deixe um comentário

Devo aos bons papos com AM, há quase dois anos, entre caminhadas e almoços na Paulista, a descoberta do Austerlitz.

De lá pra cá, alguma coisa mudou.

Há alguns instantes, me vejo caminhando inerte com o livro nas mãos e ainda ignorante de que mais ou menos um ano depois de ler o romance eu estarei por acaso na deserta Rosa-Luxemburg Straße em frente a Kunstgalerie Vorort Ost em Leipzig, onde, desconfiado, encontrarei na minha carona para Mainz, um condutor assumidamente lento e uma visita inesperada a uma exposição de objetos que devem algo, ora à pintura rupestre, ora à arte pop, ora à algo que se confundia bem ao que se passava comigo quando fui convidado a entrar.

Se bem me lembro, o meu passeio pela exposição ficou inicialmente marcado pelo esforço de encontrar algo de meu interesse nas imagens, esculturas e devidamente no que os visitantes (aos poucos enchendo a galeria) comentavam sobre o que havia na direção do olhar. No entanto, depois de alguns minutos, qualquer tentativa de procurar um sentido me era completamente alheia, tangencial e eu mesmo, aliás, já começava a sorrir para a minha sugestiva imagem de flâneur desinteressado entre a bourgeoisie cafona que se esforça em dar mostras de interesse e catarse diante dos vazios cavados pela arte contemporânea.

A razão para isso julgo estar na natureza de minha visita. A visita à uma galeria, pelo menos como eu a pensava ali, deveria ser sempre predita pela disposição sincera de caminhar entre algo inaudito, que, de certa forma, tem suas arestas aparadas pelo culto à arte, pelas regras do mito e que, no fim das contas, nos surpreende, pois queremos ou esperamos nos surpreender, claro, de maneira que não saiamos muito feridos, mas ilusoriamente felizes. Mas no caso de uma visita inesperada e de passagem como a minha, parecia haver outro problema e este justamente se aproximava, naquele momento, à tentativa curiosa/cômica do angustiado Vitangelo Moscarda de surpreender a imagem de si mesmo no espelho através da mirada imprevista que desvelaria sua verdadeira identidade quando seu corpo, mais lento que seu olhar, não tivesse o tempo para a pose.

Pensando agora, talvez, tive ali a chance de me deparar com este pequeno e raro instante em que o objeto nos encara sem pose e, em nós, discreto e sinceramente, se confunde; mas a perdi.

Depois de 6 meses enviei um email para Georg, der eher langsame Fahrer, perguntando sobre o nome da rua e da galeria onde estivemos. Há poucos dias atrás, olhando algumas fotos publicadas no site da BBK, algum detalhe de um conjunto de esculturas me levou ao famoso episódio em que Melville Herskövits, depois de fotografar o filho de uma aborígene, tenta, sem muito sucesso, convencê-la de que naquele pedacinho de papel poderia se ver a imagem do menino. Análogo à aborígene, acredito agora que me faltava naquela sala uma mensagem que me separasse da impressão de que eu andava entre objetos de uma estação, de um aeroporto ou de uma rodoviária, jamais entre esculturas em uma galeria de arte. Até os visitantes me interessavam menos pela qualidade de apreciadores do que de viajantes que logo mais estariam também seguindo para diferentes direções do país até a próxima parada, rápida e sem qualquer outro sentido, senão o de aliviar as dores nas costas devido ao desconforto e à tensão da viagem.

Passei algum tempo olhando novamente estas pinturas, procurando um sentido que havia aprisionado naquela noite fria em que me despedia de Leipzig, até finalmente me deparar com uma foto do coquetel que inaugurou a exposição e reconhecer, entre as duas esculturas e o leitor, um borrão que penso agora se tratar do meu rosto. Aumentei a imagem algumas vezes até ver que o borrão, onde mal se desenha expressão humana, não me diria nada, não fosse minha certeza de estar ali naquele dia, a leve inclinação de cabeça que vejo sempre em minhas fotografias e uma vaga lembrança de um impulso que me levou curioso, em algum momento da festa, em direção à leitura.

Então me lembrei de uma entrevista de Sebald. Esta foto, onde encontro o que pode ser o meu rosto e também o rosto de outros cem mil, deve ter agora o estatuto de documento. Mas mais do que isso, o que me levou a ela produz o mesmo efeito de episódios imprevistos que acontecem quando você segue sem rumo, como quem espera para ver o que vem depois, sem saber que o que vem, vem muitas vezes e somente para dar sentido.

Terminado o coquetel, procuro o meu condutor e sigo-o até o carro, enquanto ele tenta me entreter dizendo que um dos artistas é amigo e que logo chegaremos em Mainz. Depois de dez minutos, já na pista, falamos sobre arte e livros em Leipzig. Ele é editor e está escrevendo um romance de viagens. Me impressiono e ele me pergunta o que estudo. Agora ele mesmo surpreso começa a me contar de uma foto que fez no último verão na Austrália. Estivemos um dia inteiro no encalço do mais velho aborígene da região de Perth, dizia ele, e quando, finalmente encontramos sua casa, atrás de um jardim, na sombra colossal de uma árvore, entrevimos, numa sacada de madeira curtida, junto de pedras pintadas, sucata e entre restos de móveis vitorianos, uma rústica mesa de cozinha. Sobre a mesa, um jogo de chá chinês de fina porcelana tinha sido estampado tradicionalmente com o rubro, ouro e negro sobre o branco. Com sinal de respeito, salienta: vermelho, ouro e preto são as cores dos aborígenes: a terra, o sol e a pele. E ali, disse por fim, entre as xícaras e sobre a mesa, um inacreditável gato malhado em ouro-rubro-negro dorme, como se a vida fosse assim tranquilamente arranjada para ele. Sob o gato, meia capa de um livro em ouro-rubro-negro revela um nome em branco.

Bela Vista

maio 28th, 2010 § Deixe um comentário

Um mês em SP: estranha matéria de silêncio. As ruas rugem sem que pareça possível encontrar um recorte sequer de calma. Me vejo, no entanto, suspenso em um minarete cavado na pedra. Impedido pela sacada aérea de um edifício entre a natureza cega de outros edifícios, assisto ao esforço de mil operários debruçados sobre canos de água e esgoto, talvez, sem saber que levantam gaiolas, minaretes, celas, belvederes sobre a pele impermeável e as entranhas esturricadas da cidade. Aqui, nem sol, nem sombra me amolam. O décimo andar me exibe, como num aquário, a luz áspera dos trópicos descendo calada. Daqui, se ouve somente o chiado de máquina que, distante e por toda parte, dá ordem às coisas práticas, aos homens práticos, à pressa do mundo.

Em algum lugar ali em baixo, onde já não alcanço, mas sei quando avanço rumo à paisagem, vive, foge, se arrasta a vocação de uma pergunta. Se a procuro, ela se esconde, me tira o fôlego e me devolve atônito àquela primeira noção, talvez falsa, em que um homem girando em volta de si, é boa imagem para o que os gregos nomeavam de idhiótis.

Ao que me olhar de fora, de sua própria cela cavada na pedra adiante, fique sabendo que é falso.

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